Camisa 10 antes de Marta, Sissi carrega história de preconceito e pouco reconhecimento

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Para muitos, ela foi a maior craque do Brasil antes do surgimento de Marta. Sisleide do Amor Lima, a Sissi. Uma lenda do futebol feminino que fez parte do grupo de pioneiras da modalidade no país e que, apesar de sua genialidade, despediu-se dos gramados com pouco reconhecimento.

A três dias da estreia do Brasil na Copa do Mundo da França, domingo, contra a Jamaica, o GloboEsporte.com lembra um pouco dessa trajetória.

Hoje, aos 52 anos, Sissi trabalha como técnica de um time de base nos Estados Unidos. É tratada como uma lenda do futebol feminino. E o reconhecimento que recebe no Brasil é inversamente proporcional ao tamanho de seus feitos quando ousou jogar bola e quebrar paradigmas há mais de três décadas.

Saber chutar a bola, quando criança, foi o primeiro ato de resistência para Sissi. Ela e sua geração iniciaram a trajetória em uma seleção cercada pelo descaso, anos depois de o esporte ser permitido para mulheres no Brasil. Entre os anos de 1941 e 1979, a prática do futebol feminino era proibida por lei.

– Meu pai e meu irmão falavam que esse negócio de bola não era para menina. Só me deixavam brincar de bobinha. Um dia acabei me revoltando – disse Sissi.

– Peguei minha boneca e arranquei a cabeça. Foi assim que comecei a dar meus primeiros pontapés. Porque futebol feminino era proibido. Foram vários sacrifícios. Mas sempre fui persistente – lembrou a ex-jogadora.

Cabelo curto era tabu e motivo de ataques

Mais que persistente, Sissi queriae tentou da forma que podia, quebrar paradigmas de uma sociedade atrasada. Não era bem visto, nem tampouco bem aceito que mulheres jogassem futebol. Defendia-se que o esporte ia contra ao que chamava de ”essência feminina”.

E a camisa 10 daquela primeira Seleção pouco se importou com tabus de comportamento ou aparência. Mas pagou um preço por isso.

Sissi cortou os cabelos na época em que representava o Brasil para homenagear uma criança com câncer que havia sofrido bullying. Um gesto genuíno e caridoso que lhe rendeu ofensas. A principal jogadora da Seleção brasileira até os anos 2000 não recebia aplausos mas, sim, ataques.

– Tive a questão do meu cabelo curto. Chamou a atenção. Na época ninguém sabia porque resolvi raspar a cabeça. Ninguém sabia. Era uma homenagem para uma criança que tinha câncer e sofreu bullying (…) Mas foi um absurdo no Brasil. Tive que escutar um monte de coisa. O fato de ter cabelo curto… todo mundo olhava. Em São Paulo, até não aceitaram que eu participasse de um campeonato. Mas sempre falo para as meninas não deixarem que mudem seus jeitos: “Se aceitar do jeito que você é” – disse.

Sissi? Jogou onde?

A jogadora atuou naquela que foi a primeira seleção brasileira de futebol feminino. Em 1988, disputou o Mundial Experimental da modalidade, em que o Brasil das pioneiras ficou com a terceira colocação. Já em 1995, atuou pela Copa do Mundo, já da Fifa, pelo Brasil. Além dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, e Sydney, em 2000.

O grande momento de Sissi com a camisa da Seleção, no entanto, foi em 1999, na Copa do Mundo dos Estados Unidos, em que o Brasil foi medalhista de bronze. Nas quartas de final, contra a Nigéria, ela marcou o ”gol de ouro”, de falta, em um dos lances mais bonitos da história da competição.

Momentos como esse fizeram tudo, apesar das dificuldades, valer à pena.

– Até vestir roupa do masculino a gente vestiu. Não tínhamos uniforme. Mas se faria tudo de novo? Faria. A gente lutou bastante. Hoje, essa geração tem mais por causa da nossa luta. Mas não foi fácil ouvir tanto comentário a meu respeito. Só que nada disso me fez desistir – disse Sissi.

A seleção brasileira feminina tem mais um capítulo da história para escrever a partir deste fim de semana. Comandada por Marta, o Brasil encara a Copa do Mundo da França. A estreia do time do técnico Vadão será neste domingo, contra a Jamaica. Saiba mais da Copa do Mundo.

A TV Globo e o GloboEsporte.com irão transmitir não apenas este, mas todos os jogos da Seleção. O SporTV e o GloboEsporte.com exibirão também outras partidas da competição.

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